Por que o chocolate de origem virou a nova aposta do cacau baiano?

Linnea Nordven Por Linnea Nordven 5 Min de leitura
Alfredo Moreira Filho

Durante muito tempo, o cacau da Bahia saiu das fazendas apenas como matéria-prima, vendido a granel para grandes indústrias. Na análise de Alfredo Moreira Filho, empresário cuja trajetória começou na roça em Igrapiúna, município que integra a região produtora do sul baiano, a valorização do chocolate de origem mostra como uma cadeia tradicional pode se reinventar ao agregar valor ao que já produz.

Nos últimos anos, produtores, cooperativas e pequenas fábricas passaram a apostar em chocolates feitos com cacau de procedência identificada, cultivado em harmonia com a Mata Atlântica. Entenda, nos próximos parágrafos, o que é o sistema cabruca, como funciona a indicação de origem do cacau baiano e por que essa estratégia ganha espaço.

A tradição do cacau cabruca

Há mais de dois séculos, o cacau do sul da Bahia é cultivado no sistema cabruca. Nele, a mata nativa é raleada, preservando árvores de maior porte, e os cacaueiros são plantados à sombra da floresta. O nome vem da expressão regional que significa roçar a mata, retirando arbustos e algumas árvores para abrir espaço ao cultivo.

Esse modelo ajudou a manter fragmentos importantes de Mata Atlântica, um dos biomas mais ameaçados do país. Até as primeiras décadas do século passado, o sul da Bahia fez do Brasil o maior produtor mundial de cacau, antes de uma sequência de crises, como a provocada pela vassoura-de-bruxa, reduzir drasticamente a produção. Conforme explica Alfredo Moreira, a cabruca é hoje vista não apenas como técnica agrícola, mas como patrimônio ambiental e cultural da região.

A indicação de origem do cacau baiano

Como parte do esforço de recuperação, produtores se organizaram para obter o registro de Indicação de Procedência Sul da Bahia junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial, o INPI. O selo identifica o cacau produzido na região e garante ao consumidor informações sobre sua origem e suas características.

A partir dessa certificação, surgiram iniciativas coletivas, como a marca Chocolate Sul da Bahia, que reúne cacauicultores certificados e utiliza códigos nas embalagens para que o consumidor conheça o produtor, a propriedade e as características das amêndoas. Entre os participantes, há um produtor de Igrapiúna que cultiva cacau à sombra de seringueiras e de espécies nativas da Mata Atlântica. Como pontua Alfredo Moreira Filho, informar a origem aproxima quem consome de quem produz e ajuda a valorizar o trabalho no campo.

Da amêndoa à barra

O movimento também estimulou o surgimento de pequenas fábricas que produzem chocolate da amêndoa à barra, controlando todas as etapas, da fermentação do cacau à embalagem. Segundo a Ceplac, a Bahia já conta com mais de 70 marcas de chocolate, muitas delas ligadas a produtores e cooperativas da própria região.

A agricultura familiar tem papel central nesse processo, já que responde pela maior parte da produção de cacau no estado. Algumas iniciativas destinam parte das vendas a projetos de conservação, como a proteção do mico-leão-baiano no município de Una. Há ainda roteiros de turismo, como a Estrada do Chocolate, que levam visitantes a fazendas, fábricas e trilhas na mata. No olhar de Alfredo Moreira, transformar a matéria-prima em produto final é uma forma de manter na região uma parcela maior da riqueza gerada.

Desafios para consolidar o modelo

Apesar dos avanços, o chocolate de origem ainda ocupa um nicho de mercado. Os custos de produção são mais altos, a escala é menor e a concorrência com grandes marcas exige investimento em qualidade, embalagem, distribuição e divulgação. A oscilação dos preços internacionais do cacau também afeta a rentabilidade dos produtores.

Por outro lado, a crescente procura de consumidores por produtos com origem identificada, rastreabilidade e compromisso ambiental cria oportunidades. Exigências de mercados como o europeu, que passam a cobrar comprovação de que o cacau não vem de áreas desmatadas, podem favorecer quem já produz em sistemas que preservam a floresta. Segundo Alfredo Moreira Filho, o caminho para o cacau baiano passa por unir tradição, qualidade e gestão, transformando a história da cabruca em vantagem competitiva.

 

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