Meta é acusada por ex-funcionário de ordenar exclusão de evidências sobre abuso infantil

Linnea Nordven Por Linnea Nordven 9 Min de leitura

Depoimento ocorre em julgamento nos Estados Unidos que questiona a segurança de crianças e adolescentes nas plataformas da empresa.

A Meta, controladora de Facebook, Instagram e WhatsApp, está no centro de uma nova acusação relacionada à segurança de crianças e adolescentes nas redes sociais. O ex-pesquisador de integridade e segurança Jason Sattizahn afirmou que recebeu ordens para apagar dados e registros relacionados a casos de assédio e exploração sexual de menores identificados durante pesquisas internas da companhia. O depoimento faz parte de um processo judicial nos Estados Unidos no qual 29 estados acusam a empresa de adotar práticas que teriam contribuído para o uso excessivo das plataformas por jovens. (Folha de S.Paulo)

Segundo o relato apresentado no processo, a orientação para eliminar registros teria ocorrido em mais de uma ocasião e envolveria tanto superiores quanto integrantes da área jurídica da empresa. Sattizahn afirmou que a situação criou obstáculos para pesquisas destinadas a compreender riscos enfrentados por crianças nas plataformas. A Meta nega as acusações e afirma que suas práticas estão relacionadas à proteção de dados e à privacidade dos usuários. (Folha de S.Paulo)

Ex-pesquisador relata pressão para eliminar registros

Sattizahn trabalhou na área de integridade e segurança da Meta e participou de pesquisas relacionadas aos riscos enfrentados por jovens no ambiente digital. Em seu depoimento, ele descreveu uma mudança na maneira como determinadas pesquisas eram conduzidas após o vazamento, em 2021, de documentos internos da empresa relacionados à segurança de adolescentes. (Folha de S.Paulo)

De acordo com o ex-funcionário, estudos que poderiam apresentar riscos para a empresa passaram a sofrer maior interferência jurídica. Ele afirmou que recebeu uma orientação direta para eliminar dados coletados durante uma pesquisa sobre danos sexuais envolvendo menores. O relato está sendo utilizado pela acusação para sustentar a ideia de que a empresa teria restringido informações potencialmente prejudiciais à sua imagem. (Acontece Paraná)

O caso mencionado no depoimento envolve uma pesquisa realizada com uma família na Alemanha. Segundo o relato, uma criança teria contado aos pesquisadores que havia sido alvo de abordagens de natureza sexual enquanto utilizava produtos ligados ao ambiente virtual da empresa. Sattizahn afirmou que registros relacionados à entrevista foram posteriormente alvo de uma ordem de exclusão. (Acontece Paraná)

As alegações precisam ser tratadas como afirmações apresentadas no processo judicial, e não como fatos definitivamente comprovados. A Meta contesta a interpretação dada aos acontecimentos e sustenta que suas equipes precisam cumprir regras de proteção de dados e outras obrigações legais. A disputa deverá continuar durante o julgamento em andamento nos Estados Unidos.

Julgamento coloca segurança de jovens no centro da disputa

O depoimento de Sattizahn ocorre dentro de um processo movido por 29 estados americanos, que acusam a Meta de desenvolver e operar suas plataformas de maneira prejudicial a usuários jovens. Entre as alegações estão acusações de que recursos do Facebook e do Instagram teriam sido projetados para aumentar o envolvimento e dificultar que crianças e adolescentes reduzissem o tempo de utilização. (UOL)

O processo também aborda a coleta e utilização de informações de crianças menores de 13 anos. Os estados argumentam que a Meta teria violado leis federais americanas relacionadas à proteção de dados infantis. A empresa rejeita a acusação de que tenha deliberadamente criado produtos para causar dependência em crianças. (UOL)

Outro depoimento recente acrescentou novos elementos à discussão. Adam Mosseri, diretor do Instagram, negou ter incentivado funcionários a esconder informações negativas sobre segurança infantil. Ele afirmou que não se lembrava de ter pedido para receber menos informações e disse que a plataforma passou a adotar controles adicionais sobre pesquisas sensíveis depois dos chamados “Facebook Files”. (UOL)

Durante o julgamento, também foram discutidas decisões relacionadas a recursos destinados a reduzir o tempo de uso do Instagram. Um ex-funcionário afirmou que uma equipe havia defendido que a função “dar um tempo” fosse ativada automaticamente para adolescentes mais jovens, mas a proposta não recebeu aprovação. Segundo o depoimento, métricas relacionadas ao uso dos produtos pesaram na decisão. (Fortune)

Caso reacende debate sobre plataformas e proteção infantil

A disputa judicial acontece em um momento de crescente preocupação internacional sobre a segurança de crianças nas redes sociais. Plataformas digitais precisam lidar simultaneamente com conteúdos abusivos, assédio, exploração sexual, manipulação algorítmica e coleta de dados pessoais. A complexidade aumenta quando os serviços são utilizados por milhões de pessoas e os conteúdos são compartilhados em tempo real.

A questão da pesquisa interna é especialmente sensível. Empresas de tecnologia dependem de estudos para descobrir problemas em seus próprios produtos, mas pesquisadores precisam ter liberdade suficiente para registrar resultados negativos. Quando informações sobre riscos deixam de ser documentadas, torna-se mais difícil avaliar a dimensão de um problema e determinar quais medidas poderiam ser adotadas.

O debate também envolve o ambiente de realidade virtual. Documentos e depoimentos apresentados em discussões anteriores apontaram preocupações específicas relacionadas à segurança de menores em experiências imersivas. A realidade virtual pode criar uma sensação de presença diferente daquela proporcionada por redes sociais tradicionais, aumentando a importância de mecanismos de proteção adequados para usuários mais jovens. (The Washington Post)

A Meta, por outro lado, afirma que mantém esforços para identificar e remover conteúdos de exploração infantil. Em publicação oficial de julho, a empresa informou que removeu 13 milhões de conteúdos relacionados à exploração sexual infantil do Facebook e Instagram entre outubro e dezembro de 2025, sendo mais de 96% deles identificados e tratados de forma proativa antes de denúncias de usuários. (Facebook)

Essa informação é utilizada pela companhia para demonstrar que possui mecanismos ativos de combate ao abuso. As acusações apresentadas no julgamento, entretanto, questionam não apenas a capacidade de remover conteúdos, mas também a maneira como a empresa teria tratado internamente pesquisas sobre riscos para crianças.

O julgamento deverá continuar ao longo das próximas semanas, com novos depoimentos e análise de documentos internos. O resultado poderá ter consequências importantes para a Meta e também para outras empresas de redes sociais, principalmente se forem estabelecidos novos parâmetros sobre responsabilidade das plataformas em relação à proteção de menores.

O caso mostra que o debate sobre tecnologia deixou de envolver apenas inovação e novos recursos. À medida que crianças e adolescentes passam mais tempo em ambientes digitais, questões sobre segurança, privacidade, responsabilidade empresarial e transparência das pesquisas internas ganham importância crescente. As acusações contra a Meta ainda serão avaliadas pela Justiça, mas o processo já expõe uma pergunta difícil para toda a indústria: até que ponto empresas de tecnologia devem revelar riscos identificados dentro de seus próprios produtos quando essas descobertas podem gerar consequências jurídicas ou financeiras?

Fontes: Folha de S.Paulo — Meta mandou apagar evidências sobre abuso sexual infantil, diz ex-funcionário · Reuters/UOL — Diretor do Instagram nega ter incentivado ocultação de riscos a crianças · Meta — Our Work to Fight Child Exploitation on Our Apps · The Washington Post — Meta suppressed research on child safety, employees say.

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