Executivos ficam mais pessimistas com investimentos em infraestrutura no Brasil

Diego Velázquez Por Diego Velázquez 9 Min de leitura

Levantamento da Abdib e da EY-Parthenon mostra que percepção desfavorável subiu de 20,4% para 30,9% em seis meses, enquanto avaliação positiva caiu para menos de 38%; eleições, juros, inflação e cenário internacional aumentam cautela dos investidores.

O ambiente para novos investimentos em infraestrutura no Brasil passou a ser visto com maior cautela por executivos, investidores e especialistas. Levantamento divulgado nesta quarta-feira, 12 de agosto de 2026, mostra crescimento significativo da parcela de profissionais que consideram desfavorável o cenário para aportes no setor. (Folha de S.Paulo)

Os dados fazem parte de uma nova edição do Barômetro da Infraestrutura, pesquisa semestral realizada pela Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib) em parceria com a EY-Parthenon. Foram ouvidos 233 participantes ligados ao mercado de infraestrutura. (Folha de S.Paulo)

Segundo o levantamento, 30,9% dos entrevistados consideram desfavorável o ambiente para investimentos no Brasil. Seis meses antes, essa parcela estava em 20,4%. Ao mesmo tempo, a avaliação favorável caiu de 54,2% para 37,8%, uma redução de mais de 16 pontos percentuais. (Folha de S.Paulo)

Por que o otimismo diminuiu

A deterioração das expectativas não está relacionada a um único fator. A pesquisa aponta uma combinação de incertezas domésticas e internacionais, envolvendo eleições, inflação, juros, preço do petróleo, logística, protecionismo comercial, reforma tributária e tensões geopolíticas. (Folha de S.Paulo)

No ambiente interno, o custo do capital permanece como uma questão importante. Projetos de infraestrutura normalmente exigem grandes volumes de recursos e possuem períodos longos para proporcionar retorno aos investidores. Juros elevados podem tornar o financiamento mais caro e reduzir a atratividade de determinados empreendimentos.

Essa condição afeta projetos de diferentes segmentos, como rodovias, ferrovias, portos, aeroportos, energia, saneamento e mobilidade urbana. Dependendo da estrutura financeira de cada empreendimento, mudanças no custo do crédito podem alterar significativamente a rentabilidade prevista.

Eleições de 2026 entram no radar

A proximidade das eleições também aparece entre os elementos observados pelos investidores. Mudanças de governo podem provocar alterações nas prioridades de infraestrutura, políticas de concessões, regulamentação e relacionamento entre poder público e iniciativa privada.

O Barômetro procurou medir justamente essas expectativas. Segundo os resultados divulgados, 44% dos entrevistados acreditam que uma vitória da oposição ao governo Lula teria impacto positivo sobre os investimentos. Outros participantes apresentam avaliações diferentes sobre as consequências de uma eventual mudança no comando do Executivo. (Folha de S.Paulo)

A pesquisa registra percepções dos profissionais consultados e não uma previsão sobre o desempenho futuro dos investimentos. A efetiva evolução do setor dependerá de fatores econômicos, regulatórios e políticos que ultrapassam o resultado eleitoral.

Cenário internacional aumenta incertezas

O ambiente externo também contribui para a cautela. Tensões no Oriente Médio e problemas relacionados ao transporte internacional podem elevar preços de combustíveis, equipamentos e outros insumos utilizados em grandes projetos.

O levantamento destaca os efeitos da guerra envolvendo o Irã e do fechamento do Estreito de Hormuz, rota estratégica para o comércio mundial de petróleo. O cenário afetou custos de insumos e logística acompanhados pelas empresas brasileiras. (Folha de S.Paulo)

O preço do petróleo é particularmente relevante porque seus efeitos podem chegar a diferentes pontos da cadeia produtiva. Combustíveis mais caros aumentam despesas de transporte e operação, enquanto derivados de petróleo são utilizados na fabricação de diversos materiais empregados em obras.

Investimentos bateram recorde em 2025

Apesar da queda do otimismo, os números recentes do setor apresentam um contraste importante. Os investimentos brasileiros em infraestrutura atingiram aproximadamente R$ 280,4 bilhões em 2025, estabelecendo um recorde. (Exame)

Cerca de 80% dos recursos investidos tiveram origem privada, segundo os dados apresentados juntamente com o levantamento. Isso demonstra a importância que concessões, privatizações e parcerias com empresas passaram a desempenhar no financiamento da infraestrutura brasileira. (Folha de S.Paulo)

O resultado ajuda a explicar por que a piora da percepção não significa necessariamente uma paralisação imediata dos investimentos. Muitos projetos possuem contratos de longo prazo e cronogramas definidos anteriormente, fazendo com que continuem recebendo recursos mesmo em períodos de maior incerteza.

Infraestrutura depende cada vez mais do capital privado

O peso da iniciativa privada tornou previsibilidade regulatória e segurança jurídica questões particularmente importantes. Empresas que assumem concessões podem permanecer responsáveis por ativos durante décadas, o que exige planejamento sobre tarifas, demanda, custos operacionais e retorno financeiro.

Rodovias concedidas, aeroportos, terminais portuários, linhas de transmissão e projetos de saneamento são exemplos de empreendimentos nos quais decisões tomadas atualmente podem produzir efeitos durante muitos anos.

Por isso, alterações regulatórias inesperadas ou indefinições sobre políticas públicas podem elevar a percepção de risco. Quanto maior o risco percebido, maior tende a ser o retorno exigido pelos investidores para financiar determinado empreendimento.

Reforma tributária preocupa empresas

Outro ponto acompanhado pelo setor é a implementação da reforma tributária. O levantamento indica que 62% das empresas consultadas acompanham de perto seus possíveis impactos. (Folha de S.Paulo)

Para companhias de infraestrutura, mudanças tributárias podem influenciar custos de construção, contratação de serviços, aquisição de equipamentos e estruturação financeira dos projetos.

Como muitos contratos foram elaborados sob regras tributárias anteriores, empresas também precisam avaliar como a transição para o novo sistema poderá afetar concessões e investimentos já existentes.

Queda do otimismo não significa abandono dos projetos

Embora o aumento da avaliação negativa seja relevante, o próprio volume de recursos investidos recentemente mostra que existe uma diferença entre percepção sobre o ambiente econômico e investimentos efetivamente realizados.

O setor encerrou 2025 com R$ 280,4 bilhões investidos mesmo diante de desafios econômicos. Além disso, muitos empreendimentos brasileiros continuam atraindo empresas devido ao tamanho do mercado e à demanda acumulada por melhorias em transporte, energia, saneamento e logística. (Exame)

O desafio será verificar se a deterioração das expectativas começará a afetar decisões sobre novos projetos. Caso empresas adiem aportes, os efeitos podem aparecer posteriormente em leilões, concessões e projetos ainda em fase de planejamento.

Logística é estratégica para a economia brasileira

A discussão possui impacto que vai além das grandes construtoras e concessionárias. Investimentos em infraestrutura afetam diretamente a produtividade de praticamente toda a economia.

Rodovias e ferrovias influenciam o custo do transporte de produtos agrícolas e industriais. Portos interferem na competitividade das exportações. Energia e telecomunicações são fundamentais para empresas, enquanto saneamento e mobilidade possuem efeitos diretos sobre a qualidade de vida da população.

No agronegócio, por exemplo, gargalos logísticos podem aumentar o custo necessário para transportar soja, milho, carnes e outros produtos entre as regiões produtoras e os terminais de exportação.

O que pode acontecer nos próximos meses

A evolução das expectativas deverá depender principalmente do comportamento dos juros e da inflação, do ambiente internacional, das definições relacionadas à reforma tributária e do cenário político brasileiro.

O resultado das eleições também será acompanhado pelo mercado, especialmente em relação às políticas previstas para concessões, investimentos públicos e participação privada em grandes projetos.

O dado divulgado em 12 de agosto funciona, portanto, como um sinal de alerta, mas não representa uma retração já consolidada dos investimentos. A parcela dos entrevistados com visão desfavorável aumentou para 30,9%, porém o Brasil vem de um ano recorde de aportes em infraestrutura. (Folha de S.Paulo)

O contraste entre esses dois indicadores resume o atual momento do setor: há projetos, capital privado e demanda por infraestrutura, mas também cresceu a incerteza sobre as condições para novos investimentos. Os próximos meses serão importantes para mostrar se o pessimismo permanecerá restrito às expectativas ou começará a aparecer também nos números efetivos de investimentos.

Fontes: Folha de S.Paulo — levantamento Abdib/EY-Parthenon. (Folha de S.Paulo) Exame — dados do Barômetro da Infraestrutura e investimentos realizados em 2025. (Exame)

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